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8.

NEGRESCO [2003] Máscara

Plantas realizam fotossíntese. São verdes. Queria eu possuir alguma espécie de pigmento. Queria eu ser verde. Ora, até mesmo porque já que tenho celulite, devo produzir celulose. Pensando bem, verde não. Os bêbados é que são verdes. Queria ser azul. Sendo azul não carregaria o fardo de minha pele branca. Não houve ainda raça de mulheres azuis. Nada ainda foi feito por elas de errado. Ora, os vermelhos morrem de preguiça por serem idílicos demais. Os pretos são forçados a terem uma existência transcendental. Os amarelos não toleram o nascer do Sol ao sul. Mas os azuis? Nada! Eles ainda têm a neutralidade que somente os fracos conhecem. Enquanto o mundo explode a disparidade reina absoluta. Foi quando de repente, ouvi minha memória cantar: "para o homem: negro/para o homem: rosa/ para o homem: ouro/para o anjo:azul/quais são as cores que são suas cores de predileção?"

19.

 A ESPERANÇA AO QUERER SAIR DE DENTRO DA TAL CAIXA [2003]
Objeto, 60x35x35cm.
Foto: Luis Oliveira.

Eis que um dia estava prestando atenção nas coisas que as outras pessoas também prestam atenção. Ficamos assim, prestando atenção nas coisas por um bom tempo quando, não mais que de repente, percebemos que as coisas estavam prestando atenção de volta. Será? E as coisas prestam atenção? Eu que sou eu, junto com as pessoas que sabem dos eus que cada uma delas são, estamos prestando atenção nas coisas por tanto tempo e nem sabíamos que elas prestavam atenção de volta. Ah, mas será que as coisas prestam atenção do jeito que a gente presta? Será que as coisas prestam atenção nelas mesmas ou prestam atenção na gente? Será que as coisas sabem que a gente presta atenção? Sim, porque a gente nem sabia que elas prestavam atenção e elas prestavam assim mesmo. Será que as coisas prestam atenção na gente há mais tempo que a gente presta nelas? Será que para as coisas somos coisas? Aliás, porque então das coisas serem coisas e não gente que também presta atenção?